Um menino aparentando ter doze anos, com hábitos selvagens e sem o uso da palavra, encontrado em um bosque no sul da França, no alvorecer do século XIX, logo despertou o interesse de filósofos, cientistas e cidadãos comuns. Enviado para o Instituto Nacional de Surdos-Mudos, em Paris, e examinado pelo ilustre Professor Pinel que emitiu um prognóstico desfavorável, mereceu a atenção de um jovem médico – Jean Itard. Contrariando as ideias do eminente mestre, Itard acreditou na possibilidade de educar o garoto e dedicou-se, durante anos, à tarefa de torná-lo apto ao convívio social. Essa rica experiência pedagógica, redigida por Itard em dois relatórios traduzidos no Brasil, pela primeira vez, em 2000, voltam a ser publicados em decorrência do grande interesse despertado, desde então. A leitura destes preciosos documentos revela um professor (pre)ocupado em tratar de seu aluno que, ancorado em conhecimentos da época, esforça-se em criar meios para alcançar os objetivos almejados, principalmente, o de ensinar o jovem a falar. Esse empreendimento não cessa de nos provocar e constitui uma fonte de inspiração para pesquisas sobre questões essenciais da educação de nosso tempo, como bem apontam os ensaios de autores – psicólogos, psicanalistas, linguistas e pedagogos do Brasil e do exterior – publicados na primeira parte desta edição.