Passei estes dias da liberdade de abril lendo e relendo o teu livro de poemas. Maravilhada. Tu arrancas a cor à pintura e inundas dela a vida. Ou arrancas-nos a nós da vida e enfias-nos dentro das telas. É uma arte poética brutal e serena, a tua; a arte de quem atravessou a noite da arte sem perder a inocência, o sangue e a coragem da vida. Imagens fortíssimas, as tuas - agigantas os gigantes de que partes, e torna-los, em simultâneo, mais humanos. Profundamente original, a tua voz - não conheço nada que se lhe compare. É um caminho novo o que trilhas com as palavras - no coro dos teus musos e musas renasces única e diferente de tudo. Onde muitos soçobram ao peso das influências (é o caso da maior parte dos acadêmicos e eruditos), tu come-las e bebê-las e deixas-te comer e beber por elas (em todos os sentidos dos verbos alimentares) e teces, dessas experiências-limite de gozo e sofrimento, uma voz inteiramente nova e íntegra, que dança sobre todas as coisas e todos os moldes, sendo sempre única e inconfundível e sábia, de uma sabedoria alquímica, antiquíssima e futurista. Nunca li nada em que a sensualidade cintilasse tão em uníssono com a solidão e a inteligência do universo, ou em que a delicadeza surgisse, assim, como uma dimensão indissociável da força e da visceralidade dos sentidos. É mais do que um belo livro, o teu - é um livro fortíssimo. Tenho muito mais coisas para te dizer, quase poema a poema, sobre ele e todas as palavras me parecem pobres diante do vendaval iluminado das tuas páginas. Mas não quis adiar mais esta notícia minha, só pelo orgulho de, adiando, te conseguir escrever palavras mais lustrosas.