Em ensaio revelador, professor de direito de Yale desmonta a farsa da meritocracia ao demonstrar como esse sistema aprofunda a desigualdade econômica e abre espaço para lideranças populistas A ideia de meritocracia — que premiaria os mais esforçados e habilidosos — pode parecer o modelo mais justo para substituir a aristocracia, que reserva riqueza e prestígio sempre para os mesmos escolhidos, por meio de herança. Hoje, porém, em sociedades tão marcadas por desigualdades — inclusive de raça e gênero —, como é o caso do Brasil, o conceito tem sido muito questionado. Daniel Markovits analisa a fundo a sociedade norte-americana e destrincha como a meritocracia, no fim das contas, é prejudicial tanto para a elite quanto — e principalmente — para a classe média e os pobres. Isso porque, hoje, ela se transformou no que foi concebida para combater: um mecanismo de concentração e transmissão dinástica de riqueza e privilégios. A mobilidade para ascender socialmente tornou-se uma fantasia, e a classe média está mais propensa a afundar na pobreza do proletariado do que a se tornar parte da elite profissional. Ao mesmo tempo, seu conceito seduz até os que conseguem trilhar a duras penas um caminho bem-sucedido, exigindo que adultos ricos trabalhem com intensidade esmagadora, valendo-se de superformações — que, em geral, só a elite pode pagar — para conseguir retorno. E, além de criar um cenário que acirra a luta de classes, esse sistema ainda abre espaço para o surgimento de lideranças populistas, que crescem insuflando o ressentimento de uma grande parcela da sociedade. Estes são os argumentos que Markovits desenvolve com rara força, apresentando pontos pertinentes para expor a farsa da meritocracia. Tendo passado a vida em universidades de elite, o autor conhece por dentro o sistema corrosivo em que a sociedade norte-americana está aprisionada. E também sabe que, se entendermos que a desigualdade meritocrática produz um mal praticamente universal, possivelmente encontraremos uma alternativa mais saudável. A cilada da meritocracia não apenas revela os mecanismos dessa engrenagem, como também demonstra quais seriam os primeiros passos que poderiam nos levar em direção a um mundo novo, mais capaz de proporcionar dignidade e prosperidade às pessoas.